domingo, 7 de setembro de 2014







SILÊNCIO NO IPIRANGA
Por Nireu Cavalcanti 
                                                                                                      Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/logo/posts/2010/09/18/furo-7-de-setembro-na-verdade-foi-em-1o-de-agosto-325502.asp
A leitura de documentos primários 
referentes à História do Brasil é prazerosa, 
como se estivéssemos vivendo aquele 
tempo, compartilhando a experiência. 
Inclusive a surpresa, quando os 
documentos são comparados com versões 
vigentes. Foi o que aconteceu quando, em 
recente pesquisa, eu lia e analisava os 
fatos que levaram à Independência do 
Brasil, no decorrer dos anos de 1821 e 
1822 e concluí que a Declaração de 
Independência aconteceu em 1 de agosto, 
no Palácio do Rio de Janeiro, e não em 7 de 
setembro, em São Paulo, “às margens 
plácidas do Ipiranga”. Usei três fontes: o 
Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa; a 
coleção de Leis brasileiras para o período; 
e os jornais brasileiros da época. 
Vamos lá. Em agosto de 1820 eclodiu a 
revolução dos liberais de Portugal que, no 
entanto, não destituíram o rei D. João VI. 
Mas, com o advento do Congresso 
Constituinte, que desenvolveria o esboço 
de constituição liberal, aprovado em 10 de 
março de 1821, D. João passou a ser 
titulado como Rei Constitucional e mero 
assinante dos atos promulgados pelos 
revoltosos. Coagido, teve que jurar 
fidelidade à constituição a ser elaborada 
pelas “Cortes Gerais Extraordinárias”, 
legitimando o processo revolucionário e 
sua própria expulsão. Mas, em vez de 
deixar no Brasil uma Junta, como fora 
ordenado, deixou o seu filho D. Pedro 
como regente do Reino do Brasil, intimado 
pelas Cortes a também regressar a 
Portugal com a família. Os moradores e 
autoridades civis, militares e eclesiásticas 
do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São 
Paulo reagiram, o que resultou no famoso 
dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, para 
“bem de todos e felicidade geral da 
nação...”, e todos aclamaram:“Viva a 
Religião, Viva a Constituição, Vivam as 
Cortes, Viva El Rei constitucional e Viva a 
união de Portugal com o Brasil”! 
Valente, D. Pedro conseguiu anular a 
reação das tropas portuguesas no Rio e 
convencê-las a regressarem para Portugal, 
sem derramamento de sangue. Jurou 
fidelidade a todos, inclusive à pauta liberal: 
afinal, ele era um deles. 
Em resposta à reação imediata da 
Regência e dos constituintes portugueses 
— que, na moita, baixaram normas que 
pulverizavam o poder central do Rio de 
Janeiro entre as províncias, fazendo com 
que o Brasil, na prática, voltasse à 
condição de colônia — D. Pedro convocou 
eleições (3/6/1822), em cada província, 
rompendo com as Cortes. As que não 
apoiavam D. Pedro, como Bahia, 
Maranhão, Pará, Piauí, Goiás, Mato Grosso, 
Ceará etc. se negaram a eleger seus 
deputados. Finalmente, em primeiro de 
agosto de 1822, D. Pedro assume a 
proposta política de Independência do 
Brasil. Com o título “Manifesto de S. A. R. o 
Príncipe Regente Constitucional e Defensor 
Perpétuo do Reino do Brasil, aos Povos 
deste Reino”, o regente, após uma 
introdução contextualizando as razões do 
rompimento com as Cortes e com o Reino 
de Portugal, declara: 
Acordemos pois, Generosos Habitantes 
deste Vasto e poderoso Império, está dado o 
grande passo da Vossa Independência, e 
felicidade a tantos tempos preconizada 
pelos grandes Políticos da Europa. Já sois 
um Povo Soberano; já entrastes na grande 
Sociedade das Nações independentes, a que 
tinheis todo o direito. A Honra e Dignidade 
Nacional, os desejos de ser venturosos, a 
voz da mesma Natureza mandam que as 
Colônias deixem de ser Colônias, quando 
chegam à sua virilidade, e ainda que 
tratados como Colônias não o éreis 
realmente, e até por fim éreis um Reino. (...) 

O Manifesto, após essa declaração de 
independência, contém o plano de governo 
de D. Pedro para o Brasil e é concluído 
com a convocação aos “brasileiros em 
geral” para que se unissem em torno da 
causa da Independência e confiassem nele, 
na marcha da “prosperidade do Brasil”. D. 
Pedro assegura que estará a frente de todos, 
enfrentando os maiores perigos e que “A 
Minha Felicidade (convencei-vos) existe na 
vossa felicidade. É Minha Glória Reger um 
Povo brioso e livre”. 
No mesmo dia primeiro de agosto D. 
Pedro declara inimigas as Tropas 
mandadas de Portugal para atacarem o 
Brasil e conclama a todos a resistirem com 
armas nas mãos a esses inimigos. Orienta 
os que não tivessem forças necessárias 
para enfrentá-las em guerra tradicional que 
usassem o método da guerrilha e se 
afastassem dos núcleos urbanos costeiros 
levando todo mantimento e animais que 
pudessem alimentar os inimigos. Em 
outubro o brigadeiro Madeira informa às 
Cortes que restava fiel ao governo 
português, na Bahia, apenas Salvador. 
Poucos dias após (6/8/1822), é divulgado 
o Manifesto às nações que tinham relações 
políticas e comerciais com o Brasil 
pedindo apoio a sua independência 
esperando que os homens sábios e 
imparciais de todo o Mundo, e que os 
Governos e Nações Amigas do Brasil hajam 
de fazer justiça à decisão brasileira. D. 
Pedro convida-os a “continuarem com o 
Reino do Brasil as mesmas relações de 
mútuo interesse e amizade”. 
Esses documentos, principalmente o 
Manifesto aos povos do Brasil, foram 
encaminhados aos governos civil e militar 
de todas as províncias. Podemos constatar 
isso na circular de José Bonifácio à Câmara 
da vila de Porto Seguro, datada de 7 de 
agosto de 1822. Também foram divulgados 
através de sua publicação nos jornais da 
época, por exemplo, o Diário do Rio de 
Janeiro, consultado. Esse jornal publicou 
as iniciativas da sociedade de 
recolhimento de doações para o governo 
arcar com as despesas da guerra iminente. 
D. Pedro então teve que viajar para São 
Paulo, a fim de acalmar os ânimos dos 
paulistas, revoltados com a manobra de 
José Bonifácio e de seu irmão Martim 
Francisco, destituindo dois membros da 
Junta do Governo Civil, queridos pela 
população, e substituí-los por seus 
apadrinhados. D. Pedro anulou essas 
nomeações. Partiu do Rio de Janeiro em 14 
de agosto. Nessas viagens, o rei ou o 
príncipe era acompanhado de guarda de 
honra formada por autoridades 
engalanadas que ofereciam ao monarca o 
que de melhor possuíam de montaria, 
viaturas, roupa e alimentos. Ao se 
aproximar de uma vila ou cidade, a 
comitiva parava para que a delegação 
daquele lugar viesse receber o monarca e 
substituir a guarda. Por isso, D. Pedro e 
sua comitiva pararam na região do Rio 
Ipiranga, próximo à cidade de São Paulo. 
Nesse momento, o oficial que viera 
portando documentos para D. Pedro e o 
funcionário do correio se encontraram 
com a comitiva e entregaram cartas da 
princesa Leopoldina, narrando os fatos 
sobre as Cortes de Lisboa e a agitação da 
cidade do Rio de Janeiro. Foi esse o 
momento ideal para que D. Pedro, no dia 7 
de setembro, marcasse e referendasse a 
Independência já proclamada, em território 
paulista. Esse discurso simbólico pode ser 
lido na Proclamação aos paulistas datada 
do dia 8 seguinte. 
Honrados Paulistanos: o amor que Eu 
consagro ao Brasil em geral, e à vossa 
Província em particular, por ser aquela, que 
perante Mim e o Mundo inteiro fez conhecer 
primeiro que todos o sistema maquiavélico, 
desorganizador e faccioso das Cortes de 
Lisboa, Me obrigou a vir entre vós fazer 
consolidar a fraternal união e tranquilidade, 
que vacilava e era ameaçada por 
desorganizadores, que em breve 
conhecereis. (...) Eu vos Asseguro que cousa 
nenhuma Me poderia ser mais sensível do 
que o golpe que Minha Alma sofre, 
separando-Me de Meus Amigos Paulistanos 
(...) A Divisa do Brasil deve ser 
INDEPENDÊNCIA OU MORTE . (...) 

A partir desse ato simbólico foram 
elaborados o Tope Nacional, os Escudos de 
Armas, o Hino da Independência, e outros 
ícones do novo império americano, como a 
cerimônia de entrega da bandeira. Em 12 
de outubro (aniversário de D. Pedro) ele 
foi consagrado Imperado D. Pedro I e 
coroado em 1 de dezembro de 1822.
Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/logo/posts/2010/09/18/furo-7-de-setembro-na-verdade-foi-em-1o-de-agosto-325502.asp

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